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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sociedades Pagãs

Dos pontos comuns a todas as sociedades da Cultura Pagã, surgem as características das religiões pagãs, ou seja, dos esquemas que dão forma e concretude à espiritualidade pagã. Talvez possamos listar, com pouca margem de erros, as seguintes:

- Talvez a principal característica da religiosidade pagã seja a radical imanência divina, ou seja, a divindade se encontra na própria Natureza (o que inclui os humanos), manifestando-se através dos seus fenómenos.

- Ausência da noção de pecado, inferno e mal absoluto. Como a relação com os deuses é sempre pessoal e direta, a ideia de uma afronta à divindade é tratada também pessoalmente, ou seja, entre o cidadão e a Divindade ofendida. Assim, sem noção de pecado, também não há noção de inferno.

- A sacralidade da Terra também levou à ausência de templos, o que, no entanto, não impede a noção de Sítios Sagrados, em geral bosques, poços ou montanhas. Templos Pagãos são um desenvolvimento muito posterior.

- A imanência dos deuses e a ideologia da ancestralidade divina, confere à divindade características antropomórficas e as relações tendem a ser estreitadas ao longo da vivência religiosa.

- O calendário religioso se confunde com o calendário sazonal e agrícola, o que lhe confere um carácter de fertilidade. Portanto, as festividades acontecem nos momentos de mudança e auge de ciclos naturais.

- Essas relações pessoais humanos/deuses, leva à ausência de dogmatismos ou estruturas religiosas padronizadas, havendo, pois, uma grande liberdade de culto: cada cidadão tem liberdade de cultuar dos Deuses em sua casa, da forma que desejarem. Basicamente, é uma religiosidade doméstica ou de pequenos grupos com laços de sangue ou de compromisso. No entanto, os Grandes Festivais são sempre rituais comunitários.

- A relação mágica com a Natureza obviamente se traduz numa religiosidade mágica.

- A sacralidade da Natureza torna todas as religiões pagãs em religiões de comunhão, ou seja, que não visam dominar a Natureza, mas harmonizar-se com ela. Por isso, também são religiões intuitivas e emocionais. Em geral, os pagãos valorizam mais a vivência da religiosidade em detrimento das infindáveis discussões metafísicas.

- O respeito aos ancestrais e o tradicionalismo que isso implica, faz das religiões pagãs uma experiência de continuidade do egrégor ancestral, ou seja, a repetição dos mesmos ritos, na mesma época, cria a união mística com todos aqueles que já celebraram antes. Nesse momento, o tempo é rompido e se estabelece uma relação mágica com ele também: a repetição do rito torna presente o momento primitivo da sua realização e todos aqueles que, ao longo dos séculos, dele tenham participado.

- A perspectiva cíclica do tempo dá a certeza do eterno retorno. Embora alguns povos tenham desenvolvido a ideia de um "Outro Mundo", a vida pós-morte nunca foi um ideal Pagão, pois isso significaria ficar fora do ciclo e, portanto, da comunidade. Assim, o "Outro Mundo" (para aqueles que desenvolveram essa ideia) será apenas uma passagem entre uma vida e o renascimento. O encontro com a Deidade se dá sempre na comunhão com a Natureza, e não no Outro Mundo.

Obviamente, diferentes povos da Cultura Pagã desenvolveram suas liturgias e costumes religiosos típicos, locais e ancestrais, o que pode aparecer como diferenças entre religiões. No entanto, essas características básicas permanecem, pois são típicas do Paganismo.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Dança das Cabaças - Exu no Brasil

Um dos melhores documentários sobre religião afro-brasileira, e também um grande trabalho de conscientização.



Trazido pelos escravos com outros Deuses do panteão Yoruba, Exu foi colocado à margem e passou por um processo de demonização que se inicia na missão católica na África e se estende no período colonial brasileiro, onde seus atributos originais foram ocultados.

Exu que na África era caracterizado como o princípio da vida, a força que move os corpos, a dinâmica, o senhor dos caminhos e das encruzilhadas, a principal ponte entre os mortais e as divindades que habitam o além, passa a ser visto como a personificação do mal perante o modelo cristão, devido ao seu seu símbolo fálico e seu comportamento astucioso.

Dirigido por Kiko Dinucci, o filme passa pelas diversas vertentes das religiões afro-descendentes, dos candomblés (de tradição Nagô, Gege, Bantu), Tambor de Mina, passando pela Umbanda e Quimbanda. Dança das Cabaças-Exu no Brasil conta com participações de Sacerdotes e estudiosos.

site: http://dancadascabacas.blogspot.com/

Padê de Exu Libertador

Boa noite, vamos começar com as postagens do Casa do Curupira com um poema de um dos um dos maiores defensores da cultura e igualdade para as populações afrodescendentes no Brasil.


Padê de Exu Libertador

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Ó Exu
ao bruxoleio das velas
vejo-te comer a própria mãe
vertendo o sangue negro
que a teu sangue branco enegrece
ao sangue vermelho
aquece nas veias humanas
no corrimento menstrual
à encruzilhada dos teus três sangues
deposito este ebó preparado para ti
Tu me ofereces?
não recuso provar do teu mel
cheirando meia-noite de marafo forte
sangue branco espumante das delgadas palmeiras
bebo em teu alguidar de prata
onde ainda frescos bóiam
o sêmen a saliva a seiva
sobre o negro sangue que circula no âmago do ferro
e explode em ilu azul
.
Ó Exu-Yangui
príncipe do universo e último a nascer
receba estas aves e os bichos de patas
que trouxe para satisfazer tua voracidade ritual
fume destes charutos vindos da africana Bahia
esta flauta de Pixinguinha
é para que possas chorar chorinhos aos nossos ancestrais
espero que estas oferendas agradem teu coração
e alegrem teu paladar
um coração alegre é um estômago satisfeito
e no contentamento de ambos está a melhor predisposição
para o cumprimento das leis da retribuição
asseguradoras da harmonia cósmica
Invocando estas leis imploro-te Exu
plantares na minha boca o teu axé verbal
restituindo-me a língua
que era minha e ma roubaram
.
Sopre Exu, teu hálito no fundo da minha garganta
lá onde brota o botão da voz para que o botão desabroche
se abrindo na flor do meu falar antigo
por tua força devolvido
monta-me no axé das palavras
prenhas do teu fundamento dinâmico
e cavalgarei o infinito sobrenatural do orum
percorrerei as distâncias do nosso aiyê
feito de terra incerta e perigosa
Fecha o meu corpo aos perigos
transporta-me nas asas da tua mobilidade expansiva
cresça-me à tua linhagem de ironia preventiva
à minha indomável paixão
amadureça-me à tua desabusada linguagem
escandalizemos os puritanos
desmascaremos os hipócritas filhos da puta
assim à catarse das impurezas culturais
exorcizaremos a domesticação do gesto
e outras impostas a nosso povo negro
.
Teu punho sou, Exu-Pelintra
quando desdenhando a polícia defendes os indefesos
vítimas dos crimes do esquadrão da morte
punhal traiçoeiro da mão branca
somos assassinados porque nos julgam órfãos
desrespeitam nossa humanidade
ignorando que somos os homens negros
as mulheres negras
orgulhosos filhos e filhas do Senhor do Orum
Olorum Pai nosso e teu Exu
de quem és o fruto alado da comunicação e da mensagem
.
Ó Exu
uno e onipresente
em todos nós
na tua carne retalhada
espalhada por este mundo e o outro
faça chegar ao Pai anotícia da nossa devoção
o retrato de nossas mãos calosas
vazias da justa retribuição
transbordantes de lágrimas
diga ao Pai que nunca no trabalho descansamos
esse contínuo fazer de proibido lazer
encheu o cofre dos exploradores
à mais valia do nosso suor
recebemos nossa menos valia humana
na sociedade deles
nossos estômagos roncam de fome e revolta
nas cozinhas alheias
nas prisões
nos prostíbulos
exiba ao Pai nossos corações feridos de angústia
nossas costas chicoteadas
ontem no pelourinho da escravidão
hoje no pelourinho da discriminação
Exu tu que és o senhor dos caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando nossa luta
atual e passada
Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras
neste padê que te consagra
não eu
porém os meus e teus irmãos e irmãs em Olorum
nosso Pai que está no Orum
Laroiê!
(Abdias Nascimento)
Nas Roças-de-santo, todo culto é iniciado com o Ipade de Exu. pois ele é quem possibilita a vinda dos Orixás a terra, para dançar e distribuir seus axés para o povo.  E assim com a benção de Exu, e de todos os Orixás, iniciamos as postagens desse blog. Axé